Fail Better!: “Zero Sum” por Rui Eduardo Paes

"... está aqui alguma da melhor música que a nova geração de improvisadores portugueses tem para oferecer."

Rui Eduardo Paes - Jazz.pt

Quinteto estreado em 2013, Fail Better junta músicos das cenas de Coimbra (José Miguel Pereira, Marcelo dos Reis), Porto (João Pais Filipe, João Guimarães) e Lisboa (Luís Vicente) apostados numa música integralmente improvisada que não desdenha os primados do jazz (antes pelo contrário), mas procura integrá-los com outras influências e perspectivas – designadamente as de um certo rock e, pelo que se ouve no “drone” inicial, da electrónica “live” (e isso apesar de o único instrumento ligado à electricidade ser a guitarra de dos Reis, uma surpresa quando se sabe que este utiliza habitualmente um instrumento acústico).

Inspirado numa citação de Samuel Beckett («Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.»), mas também na afirmação de Miles Davis de que, na música, não existem erros, apenas situações que podem ser aproveitadas da melhor maneira, o disco aplica aquela que é uma premissa da própria improvisação. Não que este “Zero Sum”, gravado em concerto depois de uma residência artística na Cidade Universitária, seja tocado “ao lado”. Nada disso: está aqui alguma da melhor música que a nova geração de improvisadores portugueses tem para oferecer.

Narrativa, com um forte sentido dramático e rica em recursos e ideias, a “improv” aqui contida difere mesmo dos usos e costumes nesta área em Portugal. Há curiosos paralelismos com o jazz progressivo escandinavo e as construções parecem continuar as premissas de algum free norte-americano da editora ESP – começando pelos muito curiosos jogos entre o saxofone alto de Guimarães e o trompete de Vicente.

Os materiais utilizados variam ao sabor das circunstâncias, ainda que de forma sistematizada e por blocos. Marcelo dos Reis, por exemplo, tanto soa como um Sonny Sharrock europeu como opta por um papel colorístico, ou atmosférico, que poderia ter vindo da cabeça de Jim O’Rourke. A tónica geral das peças reunidas é melancólica e introspectiva, mas quando tal se torna demasiado evidente surge uma mudança de direcção. Regra geral, marcada por um acréscimo de intensidade, não uma intensidade furiosa mas leve, desenvolta, que funciona como um bem-vindo contraste, um alívio.

Este é um grupo que pouco tem tocado ao vivo – a última vez, depois de estar um ano desaparecido, foi no Ciclo de Jazz da Amadora, ainda há umas semanas –, mas é um projecto que tem pernas para andar e argumentos suficientes para se tornar numa referência de qualidade e de imaginação. E de espírito colectivo: não há propriamente solos, ou melhor, todos solam, a sós, em diferentes conjugações tímbricas ou fazendo o pleno da instrumentação associada.

Afirmou certa vez Christine Abdelnour que é mentira que a improvisação seja apenas uma questão de “pele”. Na sua opinião, o cérebro está lá, agindo no instante da criação, e o que se pode dizer no caso presente é que esta é uma música improvisada inteligente. Bravo!