LUÍS VICENTE / JOHN DIKEMAN / WILLIAM PARKER / HAMID DRAKE

1 de Dezembro de 2020

O prolífico trompetista português tocou na última década com músicos de toda a Europa, frequentemente com o ex-pat, saxofonista tenor americano John Dikeman, que reside na Holanda. Em «Escusado será dizer, mas tem que ser dito» Vicente salta para a grande liga e ele e Diklemam juntam-se à poderosa secção rítmica do baixista americano William Parker e do baterista-percussionista Hamid Drake, que trabalharam juntos desde há trinta anos, como um duo, em bandas de William Parker e com pesos pesados ​​como com Peter Brötzmann, Frode Gjerstad, David S. Ware, Fred Anderson, Kidd Jordan e também Dikeman («Live At La Resistenza», El Negocito / Tractata, 2015 )

«Goes without saying, but it’s got to be said» foi gravado ao vivo na Galeria Zé Dos Bois (ZDB), em Lisboa, em julho de 2020. As três peças de improvisação livre são creditadas aos quatro músicos. A performance começa com a «1ª frase» de 27 minutos, introduzida por Parker e Drake, mas logo Vicente e Dikeman voam sobre o groove poderoso e irresistível de Parker e Drake e desenvolvem uma interação densa, mas comovente. Dikeman opta por uma abordagem mais crua e áspera em comparação com as linhas claras e redondas, mas super-rápidas de Vicente, que muitas vezes alterna com breves linhas melódicas e líricas e pesquisa tímbrica ocasional. Posteriormente, Drake e Parker intensificaram a dimensão soul-funky desta peça, desencadeando respostas poéticas de Vicente e Dikeman.

A curta «2ª frase» segue um curso completamente diferente, mais silencioso e suave. Impulsionados pela pulsação meditativa e hipnótica de Parker e Drake, Dikeman e Vicente trocam ideias emocionais e melódicas, que acabam terminando em uma coda extática. Na última «3ª frase» Drake, nos vocais e tambor de frame, e Parker, no gimbri norte-africano, assumem a liderança e oferecem um modo ritualista de chamada e resposta, com Drake entoando versos do Alcorão. Quando Vicente e Dikeman se juntam a esse tipo de interação devocional, ambos adicionam belos gestos líricos, enfatizando a atmosfera humilde e mais humana desta peça e terminando com um sussurro.

William Parker pergunta com interesse o que faz a música funcionar, mesmo nesses tempos de pandemia de Covid-19. Sua resposta: amor e improvisação definitiva. Nem é preciso dizer que Parker está certo e essa foi uma atuação mágica.

Eyal Hareyveni