Lume (ESGOTADO)

CD €13,00

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1. What?
2. LUX
3. Turn Around
4. Ignição
5. (...)
6. Freestyle Boogie
7. Curves on the points to find
8. Festa


Produzido por JACC Records e LUME

Grafismo: Nuno Luz 

Mistura: Fernando Matias

Masterização: Luis Delgado

Gravação: Estúdios Timbuktu ANDRÉ FERNANDES e NUNO COSTA/2009


Enquanto as práticas artísticas pós-modernas se iam gradualmente remetendo para um irresolúvel neo-modernismo ou se contentavam com um trabalho de corte e cola, alguns criadores isolados foram congeminando, quantas vezes sem quererem alardearem os seus propósitos, algo a que, à falta de melhor termo, podemos chamar “pós-pós-modernismo” – em Portugal, um desses casos é o do compositor, director de orquestra, pianista e manipulador de electrónica Marco Barroso. A finalidade pode ser a que Lyotard teorizou, construir novos sistemas ou, para utilizar a linguagem da arquitectura, novos edifícios, a partir das ruínas dos que os antecederam, mas se na altura da cartilha pós-modernista tal ambição foi, por vezes, um equívoco, dado que alguns desses monumentos afinal não tinham desabado, a atitude é agora bem distinta. A música que Barroso concebe para o Lisbon Underground Music Ensemble é especulativa, na medida em que apresenta interrogações e coloca possibilidades, ao invés de ser assertiva. Se o pós-modernismo se tornou um dogma, o pós-pós-modernismo do LUME é um permanente “what if?”, tudo mantendo em aberto.

Um desses edifícios ou sistemas (na verdade, trata-se de um sub-sistema) que não estavam devolutos, e continuam a não estar, mais de 20 anos depois da emergência pós-moderna, é aquele em que habitam as big bands do jazz. Por muito que se tivesse alardeado que o orquestralismo morreu no jazz, o certo é que, mesmo em período de crise económica global, supostamente penalizador das formações musicais de grande número, as big bands continuam a marcar a actualidade e a manter todas as suas referências históricas. Os exemplos internacional de Maria Schneider e português da Orquestra de Matosinhos são suficientes para se perceber o alcance desta evidência. Ora, é com os formalismos e a carga patrimonial de uma big band que lida Marco Barroso. Esses elementos não os trata o músico lisboeta como o entulho de uma demolição, mas como a matéria-prima de uma realidade modernista ainda viva, uma realidade construída ao longo de um século por Duke Ellington, Billy Strayhorn, Fletcher Henderson, Glenn Miller, Benny Goodman, Count Basie, Dizzy Gillespie, Gil Evans, Charles Mingus, Carla Bley, Thad Jones, Mel Lewis, Lew Tabackin, Toshiko Akiyoshi, Sun Ra, Alexander Von Schlippenbach e Anthony Braxton.

Alusões a tudo o que foram as big bands ao longo da evolução estética e técnica do jazz surgem neste tão aguardado disco dos LUME, mas ficamos por aí no que respeita a ligações com a tradição. Se a orquestra toca o património estético (bons exmeplos são “Turn Around” e “Freestyle Boogie”), fá-lo por via de uma dramatização dos vocabulários originais. O jazz pós-pós-modernista de Marco Barroso é uma representação do jazz modernista, e assim como o cachimbo de Magritte não é um cachimbo, os jazzes que surgem ao longo do CD (dixieland, swing, be bop, funk-jazz, free, etc.) são “fakes” dos modelos adoptados. O trabalho de electrónica desenvolvido funciona mesmo como um enquadramento, evidenciando o facto de estarmos a ver um “filme” feito de flash-backs – cada invólucro sonoro gerado por computador adicionado ao ensemble significa a filtragem do presente, cada transição entre faixas com o ruído de uma agulha gira-discos num vinil tem valor simbólico, situando-nos nas molduras da memória.

O efeito cinemático pretendido adensa-se com uma utilização parcimoniosa de samples com falas retiradas, sobretudo, de gravações de concertos. Em “Ignição” os que se sucedem provêm do universo pop-rock, designadamente Pixies, Grandmaster Flash, Morphine, Devo, Big Black, Mike Patton, Frankie Goes to Hollywood. Quem não está familiriarizado com esta área da música não se apercebe da origem, mas quem está detectará de imediato a voz de Frank Black. O sampling de Marco Barroso inclui a própria sétima arte: em “Curves on the Points to Find”, trocadilho que nos remete para uma peça do compositor contemporâneo Luciano Berio, ouvimos a respiração do astronauta de uma das mais intensas cenas da longa-metragem “2001 – Odisseia no Espaço” de Stanley Kubrick, e em “Festa” recordamos a passagem do primeiro episódio da série televisiva “Espaço 1999” em que a Lua sai de órbita depois de uma explosão. Com tais procedimentos, não só construímos imagens mentais como há uma deslocação dos signos bigbandísticos do jazz para uma dimensão musical outra e, uma transferência para referentes extra-musicais.

A escrita de Barroso para sopros (seis madeiras, seis metais) é frequentemente zappiana (sobretudo o Zappa de “Lumpy Gravy”) e o labor electrónico inspira-se nos Residents: estes não são, propriamente, padrões do bigbandismo jazz, mas por eles passam os conceitos aplicados pelo LUME. A música aqui documentada é “groovy” e abstracta, passa pela utilização de “drones” e de complexos contrapontos, alimenta-se dos blues e entra pelos domínios da música erudita, actua por camadas, constituindo os solos (notáveis os de Eduardo Lála, Elmano Coelho, Jorge Reis, José Menezes, João Moreira, Paulo Gaspar e Luís Cunha) apenas as que se posicionam por cima, joga com paradoxos e, acima de tudo, reinventa os postulados em causa. Ou seja, esta é a música da nossa “pós-contemporaneidade”, a designação que melhor define este tempo que lida com tudo o que já foi musicalmente realizado, daí retirando renovadas consequências e comprovando que o futuro se constrói com o passado. Um empreendimento fora-de-série, único no nosso país e dificilmente contornável no mundo. 

Rui Eduardo Paes (crítico de música, ensaísta)

 

12€ (portes incluídos)

Críticas

LUME (crítica na Time Out Lisboa)

"(...) não faltam motivos para celebrar a muito aguardada emersão desta fascinante criatura subterrânea.".

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